O GLÚTEN: UM PROBLEMA SÉRIO OU APENAS UMA MODA? (Parte 2)


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Como vimos no artigo anterior (LINK), o glúten parece estar relacionado com muitos problemas que afectam a nossa saúde.

 

Outro dos problemas do glúten tem a ver com o tipo de produtos em que está inserido.

 

Os produtos feitos à base de trigo, centeio e cevada, ou seja, com glúten, são também produtos, regra geral, com elevados índices e cargas glicémicas e com um grande potencial acidificante da dietas, podendo estar associados ao ganho de peso, à acumulação de gordura visceral, a dislipidémias, ao desenvolvimento de resistência à insulina e de diabetes do tipo II, ao desenvolvimento de cataratas, à osteoporose, entre outras condições associadas aos picos de glicémia/insulina, ao teor ácido e ao stress oxidativo que este tipo de produtos promove.

 

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Aqui o problema não é tanto o glúten mas sim os produtos onde ele se encontra pelo que, se considerar eliminar o glúten da sua alimentação, poderá obter melhorias nestas doenças/condições.

 

Mas como é que o Glúten provoca tudo isto?

 

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O intestino funciona como a nossa primeira barreira contra partículas estranhas ao organismo, apresentando uma grande atividade imune.

 

O nosso sistema imunitário tem como função reconhecer e eliminar proteínas estranhas ao nosso organismo, defendendo-nos de possíveis infeções.

 

O problema é que não são apenas os patógenos (agentes estranhos ao organismo como vírus e bactérias) a despoletar reações imunitárias.

 

Algumas proteínas alimentares também têm esse poder e a gliadina do glúten é uma dessas proteínas.

 

Para ajudar a esta festa, as gliadinas possuem uma estrutura química complexa que dificulta a ação das nossas enzimas digestivas ao longo do trato gastrointestinal, permitindo que cheguem ao intestino intactas e capazes de serem reconhecidas pelo nosso sistema imunitário, gerando um processo inflamatório que, dependendo do tempo e da extensão, se pode tornar sistémico, desenvolvendo-se uma inflamação crónica sub-clínica que pode estar na origem de sintomas diversos desde enxaquecas a fadiga generalizada.

 

No caso da doença celíaca, que tem uma forte componente genética associada, esta reação às gliadinas do glúten provoca também uma reação do sistema imunitário contra as próprias células do intestino, causando uma “destruição” da parede intestinal o que está na origem dos sintomas associados a esta doença e a outras complicações provocadas pela má absorção de nutrientes que conduz a fortes carências nutricionais, comuns nos doentes celíacos.

 

Para além de desencadear este processo inflamatório, as gliadinas têm outro poder: o poder de aumentar a permeabilidade do intestino.

 

As células intestinais encontram-se ligadas entre si por umas estruturas chamadas tight junctions.

 

Quando a gliadina do glúten atinge o intestino promove a produção de zonulina, uma proteína que “desmonta” as tight junctions, aumentando a permeabilidade do intestino.

 

Desta forma, partículas alimentares mal digeridas, que normalmente seguiriam para as fezes no sentido de serem eliminadas, conseguem aceder à circulação sanguínea tornando-se potenciais alvos para o nosso sistema imunitário, podendo aumentar o processo inflamatório.

 

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Este parece ser o mecanismo através do qual o glúten contribui para o desenvolvimento de doenças autoimunes como a artrite reumatoide.

 

Como se tudo isto não fosse suficiente, o glúten tem ainda o poder de influenciar o nosso cérebro e de promover mecanismos de dependência através das exorfinas que tem na sua composição.

 

Estas exorfinas (gluteomorfinas) são reconhecidas e ligam-se aos receptores de morfina no cérebro, os mesmos receptores a que se ligam os opiáceos, induzindo a dependência, motivo pelo qual é tão difícil para algumas pessoas eliminar o glúten da sua alimentação relatando sintomas de privação e recaídas frequentes quando tentam deixar de consumir produtos com glúten.

 

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Então o que devo fazer para me livrar do glúten?

 

O glúten afeta em larga escala a nossa saúde pelo que equacionar a sua eliminação da alimentação pode ser uma boa estratégia para melhorar a sua saúde. Aqui ficam alguns conselhos:

 

• Evite todos os produtos que contenham glúten (fizemos uma lista no post anterior).

 

• Coma comida de verdade – vegetais, fruta, carnes, peixes, ovos, frutos secos, etc.

 

• Evite os produtos processados e embalados – a maioria deles contém glúten

 

• Resista à tentação – os primeiros dias sem glúten podem ser complicados com sintomas de privação como dores de cabeça ou desejos súbitos. Tente resistir!

 

• Se for jantar fora, escolha bem o local – ir jantar a uma pizzaria pode não ser a melhor opção. Hoje em dia já existem restaurantes onde têm em atenção esta temática e mesmo num restaurante comum um peixe ou carne com salda é sempre uma opção segura.

 

• Tenha atenção aos produtos glúten free – muitas vezes estes produtos não são feitos com farinhas derivadas do trigo, centeio ou cevada que são substituídas por outras farinhas como a de arroz ou a de milho que podem não ter glúten, mas têm índices glicémicos elevados, não sendo uma boa opção se o objectivo for perder peso.

 

• Tenha atenção à aveia que compra – a aveia normalmente é uma opção segura relativamente aos sintomas associados ao glúten. O que acontece muitas vezes é que é processada nos mesmos locais que o trigo, o centeio e a cevada, encontrando-se contaminada. Prefira a aveia sem glúten.

 

• Trigo Sarraceno é uma boa opção – a palavra trigo está lá mas não tem glúten.

 

Termino respondendo à pergunta que deu origem a este artigo: o glúten é um problema sério e não apenas uma moda.

 

A eliminação do glúten pode ajudar a melhorar, e muito, a sua saúde.

 

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Pense nisso!

 

Até breve.